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A experiência de viver em uma cidade pequena e arborizada me fez reparar melhor na beleza do outono. As folhas, já amareladas, começam a cair das árvores. As temperaturas, cada vez mais frias, são um convite ao aconchego do lar. Mas quando o sol aparece, o meu coração se enche de uma alegria imensa e corro para a varanda para sentir um pouquinho do seu calor.

Em um belo dia de sol de outono, fiquei observando o meu vizinho preparar o seu amplo e lindo jardim para a chegada do inverno. Ele passou horas podando as pequenas árvores do jardim, cortando a grama, limpando os cercados de plantas e tantas outras atividades que me cansei só de olhar! O seu jardim é sempre impecável, mas o que mais me chamou a atenção em todos esses meses é que jamais o vi usufruir daquele ambiente tão bonito e tão bem cuidado. O seu jardim conta com uma área coberta, onde tem uma mesa decorada com flores e algumas cadeiras, só que os únicos ocupantes daquele pedacinho aconchegante são duas bicicletas estacionadas. Em  outro canto do jardim, tem um banco ao lado de uma pequena árvore. Jamais vi ninguém sentar-se ali. Pelo que soube, o jardim é uma grande paixão do meu novo vizinho, é uma obra de arte. Mas qual a razão de ser de uma obra de arte, senão a de ser contemplada?

Ainda não consegui entender a motivação do meu vizinho, talvez o seu prazer seja simplesmente o de cuidar da beleza de seu jardim. A minha dificuldade em entendê-lo é porque sempre acreditei no prazer que as coisas e as experiências são capazes de proporcionar às pessoas. Ter um belo jardim, para mim, só vale a pena se for para usufruir de momentos alegres e tranquilos naquele espaço bonito. Eu não tenho talento para cultivar plantas e flores, tampouco tenho espaço para criar um jardim na minha casa. Então, seguirei tomando o meu sol na varanda, enquanto contemplo a beleza da obra de arte criada pelo meu vizinho, pois o meu prazer está na contemplação, na vivência de experiências, nos momentos de tranquilidade e de alegria.